SÍNTESE
A redução foi uma forma do sistema colonial espanhol que pretendeu incorporar e integrar à sociedade indígena dentro do Estado espanhol e suas estruturas. A redução era apenas uma etapa da missão que continuava após o estabelecimento reducional. Por sua vez, a redução está relacionada ao estabelecimento de um espaço urbano determinado, a missão é itinerante, mas pretende reduzir (do latim reduciret, conduzir) os índios à vida civlizada. Por vida civilizada devemos entender produção agrícola, recolhimento de impostos para a coroa, conversão ao cristianismo, frequência à escola, uso de "vestidos", entre outras modificações.
No atual Mato Grosso do Sul, houve quatro missões e, posteriormente aos ataques bandeirantes na décade de 1630, as missões foram concentradas em duas reduções jesuíticas (Santiago de Caaguaçu e Nossa senhora da Fé do Taré) no período compreendido entre 1630 e 1659. Estas missões faziam parte das missões do paraguai ligadas ao colégio Jesuítico de Assunção. Eram conhecidas como missões do Itatim (pedera branca na língua Guarani).
O INÍCIO
Os Jesuítas da Companhia de Jesus, iniciaram bem cedo suas atividades catequizadoras na América. As reduções do Paraguai foram criadas a partir de Lima, após uma tyentativa inicial de iniciar os trabalhos com jesuítas portugueses enviados por Manoel da Nóbrega a partir do colégio de São Paulo. Esta tentativa inicial teve veio a atender uma solicitação do bispo de Tucumán. A região do Paraguai contava com grande número de falantes de Guarani de acordo com os cronistas, entre eles Diego Ferrer em 1633. Os trabalhos iniciaram-se em Assunção, depois Guarambaré, Guairá e, com a destruição destas pelos mamelucos paulistas iniciaram-se os novos empreendimentos missionários entre os itatines, na região do Itatim. nesta região já havia uma cidade espanhola, Santiago de Xerez, que servia de ponta de lança para os jesuítas atuarem na região e, inclusive na outra margem do Rio Paraguai, entre os índios Guaicuru.
EM BUSCA DA UTOPIA
Os Jesuítas sistematizaram a língua guarani dando-lhe grafia com caracteres latinos e produzindo boa quantidade de obras literárias, maior parte ligada à catequização. Com isto a grande maioria dos indígenas foi alfabetizada. Os jesuítas também ensinaram aos guaranis as técnicas construtivas européias, que primeiro foram empregadas para a construção de grandes igrejas e catedrais e mais tarde para construções civis em geral.
De início, foram introduzidas as técnicas de lavrar pedras, trabalhar a madeira, esculpir, gravar e mesmo pintar e fundir metais, que foram aprendidas rápida e facilmente pelos guaranis. Mais tarde, cursos de poesia, música, oratória e ciências foram introduzidos. Em mais de um século perseguindo o objetivo de criar uma sociedade com os benefícios e qualidades da sociedade cristã européia mas isenta dos seus vícios e maldades, os Jesuítas conseguiram organizar mais de 30 cidades, nas quais imperava uma sociedade quase utópica.
Estas cidades tinham como centro uma grande praça quadrada no centro da qual havia uma grande cruz e uma estátua do santo protetor. De um lado havia sempre uma grande igreja e nos três outros lados as construções civis. A jornada diária de trabalho era de seis horas, a legislação civil parca e generosa. Não havia punições violentas e os preceitos eram quase inúteis pois não havia crimes.
O trabalho era comunal com partilha pacífica e justa dos resultados. Os desafortunados, os inválidos e as viúvas eram encargos comunais e havia várias instituições que construiam e mantinham hospitais, casas para viúvas, orfanatos, e vários outros serviços públicos gratuítos. Boa porte do dia era dedicado a atividades culturais, como o estudo de música, aprendizado de artes, leitura, concursos e apresentações mais diversas.
O FIM
Em 1750, a pendência entre Portugal e Espanha sobre os limites de seus domínios foi resolvida pelo Tratado de Madri, segundo o qual aquela região passou a pertencer a Portugal. Apesar disto, os guaranis não aceitaram o tratado pois já estavam aculturados o suficiente para perceberem sua identidade e defenderem sua autonomia, incentivados pela idéia disseminada pelos Jesuítas de lá estabelecerem um Estado autônomo, senão sob a proteção direta (quiçá subordinação) da Igreja Católica. Os jesuítas se mobilizaram e chegaram a oferecer aos reis da Espanha grande quantidade de tributos e riquezas para manter intacta aquela colonização baseada exclusivamente em valores religiosos e culturais. Em Portugal pouco poderam fazer, pois estavam deterioradas as relações entre aquela ordem religiosa e o Estado. Diante das primeiras compulsões os próprios guaranis se rebelaram na chamada Guerra Guaranítica, que teria durado de 1750 até 1756, e resultou na restrição do território original, que só foi completamente conquistado pelas forças luso-brasileiras após a curta guerra de 1801 entre Portugal e Espanha. Ao término de cada batalha ou refrega, além de grande quantidade de guaranis mortos, outros eram apresados como escravos. Muitos destes, além de saberem ler escrever e fazer cálculos, eram magníficos artesãos e alguns até falavam fluentemente o espanhol e o latim. Até hoje existem na região várias ruínas das construções de quatro destas cidades (São Miguel, São João Batista, São Lourenço Mártir e São Nicolau), protegidas pelos governos locais (ver ligação externa), sendo a de São Miguel declarada patrimônio da humanidade pela Unesco.
FONTE: VAINFAS, Ronaldo. Dicionário de Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000; SOUSA, Neimar Machado de. A Redução de Nuestra Senhora da Fe do Taré entre a cruz e a Espada. Campo Grande: UCDB, 2002; CORTESÃO, Jaime. Jesuítas e Bandeirantes no Itatim. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 1959.
Colaborou: Prof. Ms. Neimar Machado de Sousa.